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O Profano do Sagrado

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Não há heresia mais traiçoeira do que o fundamentalismo religioso. Tomem-se os exemplos mais conhecidos, os vértices do triângulo mitológico formado por judeus, cristãos e muçulmanos em torno do mesmo Deus. Não é preciso mais do que um olhar, a leitura de duas linhas, um minuto do som que emitem, para termos a exacta sensação de que os fundamentalistas de qualquer das três doutrinas estão do lado do bandido. Só para lembrar exemplos mais vivos na memória, cito três, - que ainda por cima fizeram a política do fundamentalismo religioso: Bush, Bin Laden, Bini Netanyahu (acreditem, Ariel Sharon foi quase um menino de coro ao pé deles). O que é que os três inspiram ou inspiraram? Ódio, medo, repulsa. No que é que os três basearam a sua popularidade? Na disseminação do ódio, medo e repulsa. E como é que o medo, ódio e repulsa podem estar ligados ao que é divino, criador, iluminado? Só pela via da apropriação indébita. Os ditos fundamentalistas tomam para si o que não é se...

Funeral

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Não o faço diariamente, mas volta e meia instruo os meus filhos sobre o meu funeral. Não que a morte me espere já ali ao virar da esquina, mas sei que me espreita. Cruzou-se comigo algumas vezes. A primeira de que me lembro, eu tinha 4 anos e olhei-a nos olhos, no fundo de uma mina de água. Por entre o lodo e musgo verdete, folhas de nenúfar a dormitar silenciosamente sobre as águas, ela deixou-me passar incólume, de regresso aos braços da minha avó. De novo nos voltámos a encarar aos 19, nessa altura num bloco operatório gélido e imaculado. E outra vez aos 30. Apanhou-me de surpresa a cruzar um tapete de alcatrão. A chegada dela fez-se acompanhar de um baque ensurdecedor. Tombei com a cabeça sobre o vidro que se estilhaçou e de um ângulo completamente novo, observei toda a parafernália que habitualmente envolve um acidente na estrada. Muita gente curiosa se juntou, dando livres asas ao desejo de ver sangue, os bombeiros e a polícia assinalando marcha de urgência, desenvolve...

(não) Aprendi a viver sem ti

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Aprendi a viver sem ti…. Queria dizer-te. Mas na verdade talvez não tenha ainda aprendido a viver sem ti. Acho até que este caminho (o da tua ausência) é um caminho longo e cheio de curvas e sinuosidades. A tua névoa serpenteia-me o trilho e tolda-me a vista, faz-me tropeçar em bocados teus que a minha bagagem vai soltando.  Tenho-te nas horas contadas entre uma paragem e outra, como um marcador do tempo, um cronómetro rigoroso e inflexível que me exige atenta às coordenadas e ao compasso certo da caminhada. Por isso, não, não aprendi a viver sem ti.  Se ainda me mexo é porque me imagino a fazê-lo na tua direcção, mas olho-me, vida à velocidade da luz e não distingo passados e futuros.  Já não sei onde tu estás. Se atrás de mim ou à minha frente.  Eu poderia realmente aprender a tua ausência como algo inultrapassável, incontornável, irremediável. Olha, como… como se tu fosses um defeito meu de nascença, uma doença crónica, uma carência vitamínica ou um inc...

Odeio-te, filho da puta!

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  Odeio o teu andar silencioso em corpos sãos, gente de boa índole e de coração que apanhas à traição. Odeio que não dês sinais, que não escrevas uma cartinha a dizer que vens e que ainda que ninguém te queira, não te vais. Odeio-te, filho da puta! Odeio que te faças presente na vida da gente e que coloques um abismo à nossa frente. Odeio que nos roubes os sonhos e a esperança, a felicidade de acordar os dias sentindo que o mundo ainda nos pertence. Odeio que nos empurres para dentro de uma redoma negra e fria, um desolador recôndito que só tem os teus olhos, igualmente negros, igualmente frios. Odeio que nos dês uma bata branca e uma cama de hospital, remédios amargos e vómitos, tudo o que poderia correr bem a correr mal. Odeio que o mundo se afaste e continue a existir sem nós, e que enquanto tentamos ganhar-te nos sintamos tão sós. Odeio que o relógio não pare e avance em direção à morte e que em todas as horas do dia amaldiçoemos a nossa sorte....

O voo dos condores

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Não sei se escrevo por gosto, necessidade ou se por vaidade. Talvez o faça por todos esses motivos e outros que não fui ainda capaz de descortinar. Acima de tudo, acho que escrevo para me esvaziar. É a minha forma (quem sabe?) de me ir matando aos poucos como se de um golpe na ulnar se fizesse a escrita e o meu sangue jorra-se criando frases com os meus fluídos, textos com as minhas vísceras e livros inteiros com várias partes do meu corpo.  Descarto-me assim de coisas minhas que já não quero a morar em mim. Histórias grandes, extensas, complexas, cenários, personagens que vivem através de mim o que me cabe apenas imaginar. Crio universos que dependem do meu punho para que não fiquem eternamente desabitados.  Escrevo realidades e misturo-as com sonhos, quimeras, mundos apocalípticos, renascidos, que me soam ao canto das sereias e me desafiam a viver neles. Escrevo sobre a folhagem seca que cobre os caminhos do Parque no inicio do Outono, sobre a escalada íngreme...

in: A Guardiã- O Livro de Jade do Céu

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É preciso alguém que nos acompanhe para que não fiquemos sozinhos com o resto do mundo. Porque é no que o mundo se tornou: Restos. Restos de paz, restos de amor, restos de sonhos e de bondade. É por isso que já ninguém quer este mundo. Ninguém gosta de restos.  Secretamente sonhamos com os apocalipses. Os bíblicos e os cinematográficos. O Day After que há-de vir carregado de novas possibilidades. Um Armagedom promissor, um desvio de rota que nos leve a bater de frente com um pedregulho espacial ou que nos conduza à entrada abrupta num buraco negro, de minhoca talvez, uma dobra no universo que nos catapulte para os novos amanhãs tão diferentes de hoje.  Secretamente desejamos o fim. Invejamos o jurássico e as eras glaciares. A hecatombe há-de salvar-nos de nós mesmos, qual arca a proteger-nos do dilúvio. A morte há-de salvar-nos da vida.Secretamente desejamos o fim.  É a possibilidade do Fim que nos fascina nas profecias. Incumpridas. Em vez do alívio trazem-nos...

Almas Gémeas

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Não deve haver coisa mais triste neste mundo que nos apaixonarmos pela nossa alma gémea. Não falo daquela tristeza que nos pára os sorrisos à chegada, falo de uma tristeza que se veste de alegria, de coração quente, de sangue que nos pula nas veias, de ilusão. É tão fácil gostar da nossa “alma gémea”, mas tão fácil, que será muito fácil pensar que se gosta de alguém quando de facto apenas gostamos de nós, num outro corpo. O que acontece é que todos andamos à procura dessa “alma gémea”, dessa coisa que nos completa, que nos deixa confortáveis, e amar - se for possível - não pode ser só uma forma de conforto, não deve ser só um cobertor que nos aquece a existência dos sentidos. Sentir é muito mais do que adormecer. É ouvir, é ver, é gesticular com as palavras, é ir mais além, é discordar e mesmo assim querer ficar tempo, mais uma hora, ou duas, só para sentir o prazer de não concordar! Chegam a ser irritantes aquelas pessoas que acabam as frases umas das outras, que se ri...