Mensagens

A ""Lenda do Havn é daqueles livros que nos fala tão alto, que quase pede para ser lido."

Imagem
(Só posso agradecer ao jornalista Bruno kalil pelas palavras tão bonitas!) "A Lenda do Havn é daqueles livros que nos fala tão alto, que quase pede para ser lido. Após ler este segundo romance editado pela Ana Kandsmar, depois de ter lido A Guardiã (1ª edição), posso concluir que é esta a obra que firma e afirma a maturidade de escrita de alguém que não está na literatura por acaso ou por equívoco. A forma como a Ana dribla as palavras e constrói as imagens da trama é genuína e peculiar, mas sem (querer) ser transcendental. Daí, até, a ancoragem e enraizamento na realidade conhecida. Entra dentro dos protagonistas sem aviso prévio, e disseca-os, deixando-lhes as vísceras renderem-se ao espanto de quem as lê. Incorpora e faz-nos mergulhar numa experiência mediúnica, que vai dos sítios mais belos aos mais atrozes locais do nosso imaginário; qual “thriller” tridimensional. E fá-lo com a cadência de um carrossel de animais que se desprendem para se enlear uns no...

Vindimas

Imagem
É Setembro, mês das vindimas. Desde o primeiro dia até às adiafas, levantamo-nos de madrugada. A mãe grita do cimo das escadas para o corredor, “toca a levantaaaar!” repete-o com uma voz que lhe trepida pelas cordas vocais e eu estremeço, ainda metade de mim imersa no último sonho.  Ainda não amanheceu. Vejo estrelas quando descubro o rosto antes tapado pelos cobertores, e a pequena janela, cujas cortinas se abrem em par, mostram-mas de um amarelo vivo, aos montinhos no céu ainda escuro, a brilhar como se pirilampos a esvoaçar por entre o negrume. As temperaturas já começaram a baixar e o meu pequeno quarto é como a exígua prateleira de um frigorífico.  Volto a tapar-me, enrolo-me mais um bocadinho. Só mais um bocadinho. “Toca a levantar!”, de novo a voz da mãe que faz eco pela casa e as palmas, as irritantes palmas da mãe, que me marcaram para sempre os acordares. É tão desagradável acordar. A vida depois disso é tão desagradável.  O café de borras a fumegar numa...

Eça é que é essa!

Imagem
Nada contra os escritores mortos. Bem pelo contrário. Não amar a obra de Fernando Pessoa, por exemplo, é quase o mesmo que dizer que não se gosta de ler livros em português, ou melhor, é o mesmo que dizer que não se gosta de ler nada. Mas o Eça...e os Maias do Eça...sejamos honestos, a maioria de nós quando o leu na escola não gostou. Vomitou-se para cima dele.  O Eça não é o meu escritor preferido, como se pode facilmente notar, mas o problema não é ler o Eça. O problema é ser-se obrigado a lê-lo quando se tem 16 anos.  Reconciliei-me com o Eça já tinha os meus 20 e poucos, e aprendi duas coisas sobre o Eça: A primeira, é que é preciso querer lê-lo. A segunda, é que é preciso ter paciência para lê-lo. Coisas que numa idade tão precoce não estão ali à mão de semear.  Posto isto, não fico chocada que se tire uma obra tão complexa quanto os Maias das leituras obrigatórias nas escolas. Além do mais, descansemos. O Eça continuará a ser lido.  Ao professor cabe...

"Pai, eu já não posso continuar a ver isto"

Imagem
"A minha família não desgostava de touradas. Não que se babassem por ir ver o Tito Capristano à Moita ou o Nelo Cagarras a Santarém, mas lá em casa, se passava uma Corrida, a malta ficava a ver. Nas férias andaluzes, chegados ao apartamento com sal mediterrânico, o meu Pai punha na TVE e até ao jantar sorvíamos a cantilena espanhola dos comentadores especialistas e 8 ou 10 toiros de morte. Não éramos aficionados mas gostávamos de ver. Do espectáculo. Da arte do matador. Da faena. Da orquestra. Do tribalismo. Só não podíamos ver os cavaleiros. Gajos de jaqueta brilhante montados num cavalo a espetar farpas que se transformavam em bandeirinhas que acenavam ao público. Degradante. O cavaleiro é o cobarde da tourada, é o puto que insulta e depois foge. Tínhamos, eu e o meu Pai, um sonho: unir a Ibéria numa só tourada: matadores espanhóis, forcados portugueses. Os cavaleiros passariam a alisar a areia, a limpar os estábulos e a dar água aos toiros.Olho a televisão com o canal públi...

O mundo é caos porque nos aborrece a ordem.

Imagem
Um Deus bom reinava sobre o mundo desde a origem dos tempos e o mundo vivia como nós o vemos viver, tanto com o bem como com o mal. Foi então que apareceu um Deus melhor, que expulsou o primeiro, e, satisfazendo a mais antiga reivindicação dos homens, aboliu o mal. O problema parecia resolvido, mas eis que um dia, um anjo do novo Deus anunciou a visita de uma delegação vinda da Terra. «O que é que eles querem mais?»- perguntou o novo Deus.- «Estão livres da angustia e do sofrimento. O que podem eles querer de melhor?» O anjo fazendo a si próprio a mesma pergunta volta junto do novo Deus com a resposta. « Eles aborrecem-se.»

A partir de segunda, dia 11 de junho, nas livrarias!

Imagem

Um excerto do livro "A Lenda do Havn"

Imagem