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«Estou às tuas ordens...»

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«Ajeitou a roupa da cama que se enrodilhara nas voltas que lhe dera, voltou à sala, serviu-se de um whisky e depois de outro e ligou o computador. Deixou-se ficar quieto, rolando o scroll do aparelho, vendo o desfilar de letras no ficheiro do word, tanta coisa já escrita, capítulo 1, 2, 3, por ali afora, não sabia se alguma coisa realmente boa, mas se não o fosse, claro que a culpa não seria dela, que lhe relatava por A+B o tal tratado sobre o desencontro, o romance sofrido, o amor arrancado a ferros.  Continuaria então a fazer das tripas coração. Era para isso que ela lhe pagava e não para se apaixonar. Isso já era coisa fora dos planos, passos mal dados a extrapolar o trilho. Ouvi-la-ia. Levaria aquele desenrolar de memórias ou de invenções delirantes, já não queria saber, até ao fim. Deixaria o texto arrumado, pronto para enviar à editora, e a partir dali, era com ela. Que alguém paginasse, que alguém criasse a capa, o trabalho dele ficaria feito e depois disso, seguiria em fren...

Pietá

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Vi-te fazer poesia. A poesia das mães que deitam o coração à terra. Vi-te, nesse gesto grande e de amor ainda maior, de amor que não cabe no mundo, carregando a mortalha do teu filho e, com as tuas próprias mãos, submersa na mais profunda e impiedosa dor, baixando-a à alcova final, o derradeiro útero. Acredita que se engalanou a Terra inteira para o receber. Era o teu bem mais precioso e ela, sabendo-o, revestiu-se das mais belas flores e amornou o seu ventre. Embala-o agora, amorosamente, como o fizeste tu tantas vezes. Vi-te um Atlas que, acabado o tempo de colher as maçãs de ouro, segurou o céu sobre os seus ombros, e tu seguras agora o céu sobre os teus ombros. Como Atlas, arrastando os passos, deixaste um rasto de silêncio, o silêncio da noite mais densa. Mas eu ouvi o teu silêncio e sei dos gritos de dor feroz que o teu silêncio esconde. A tua dor, a dor da mãe que perde o seu filho, é uma dor que vem sempre do mais fundo dos abismos e ecoa no recanto mais distante do universo. N...

A Dor...

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Não devia uma mãe perder o seu filho para não ter que adormecer de coração carcomido nem ter que acordar sem querê-lo nem ter que falar sem palavras pondo no lugar delas a sua monção Não devia uma mãe perder o seu filho para não ter que abraçar o vazio endoidecer à procura dos dias em que ele ainda estava no berço em que adormecia embalado pelas suas mãos Não devia uma mãe perder o seu filho para não sentir o abismo que a suga e poder dizer Este não foi o último muitos foram os beijos que lhe dei depois desse e tantos outros antes desse tantos abraços, risos e partilhas, ambos crescendo explorando a vida e os seus milagres tornando doce o amargo embelezando o feio celebrando amanheceres diários dando cor aos dias cinzentos... Não devia uma mãe perder o seu filho e ter apenas para memória todos os dias em que foi mãe Não devia uma mãe perder o seu filho porque não é justiça, nem é equilíbrio é só a ordem anti-natura das coisas escarnecendo da mãe cruelmente mostrando que não há remédio ...

Alberto

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Aquilo era assim: antes das nove já estávamos na padaria dos retornados a comprar paposecos acabados de sair do forno. E era daquele balcão, que vertia um delicioso cheirinho a pão quente, que lhe via a carapinha densa e depois os olhos quais esferas negras, brilhantes ,como berlindes a reluzir ao sol. Era o Alberto.   De olhos mais sorridentes que a boca que essa, tímida, tão tímida que demorou uma eternidade até produzir o som do primeiro “olá”. Fui eu que, como a mandar-lhe o isco, uma manhã, lhe estendi o punho fechado, abrindo-o depois mesmo à frente do seu nariz, carregado de pastilhas elásticas. Eu abri-lhe um sorriso convidativo à amizade e ele, primeiro hesitante, aceitou. A mão escura e sapuda agitou os seus dedos pequenitos, mais que os meus, que eram magros e esguios, e tirou uma pastilha. “não queres ir brincar?” atirei, afoita, ciente de que a resposta poderia ser a fuga ou um movimento da cabeça como a catar o vento. Mas não. Ele levantou ainda mais o rosto, j...

Misantropia

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Não, o vírus não nos tornou pessoas melhores. Nenhum vírus será capaz de nos tornar pessoas melhores. Nem um terramoto, nem um tsunami, nem vulcões ou furacões, nem meteoritos, nem uma nova era do gelo.  Enquanto existirem humanos eles continuarão a ser os humanos que sempre foram: avarentos, egoístas, egocêntricos, desumanos. É essa dicotomia que nos dá forma. A humanidade sendo desumana. A desumanidade, é o que talvez, ironia das ironias, nos torna humanos.  A promessa de que nos faríamos melhores foi só uma promessa. Seguimos iguais ao que sempre fomos.  A ética é só uma ideia que não praticamos.  Depois de dois meses de clausura, maravilhados com os sinais de liberdade da natureza, as papoilas nos passeios, os cervos nos jardins, os golfinhos nos canais, os pássaros em voos mais afoitos e pigarreando mais alto, os céus libertos de poluição e voltam os humanos à vida de sempre, ávidos por consumo, ávidos por Zaras e Mangos e por viagens e hotéis, por ter, p...

Somos Imortais, mas temos que Morrer primeiro

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Imagino que em breve a neve volte a cair. Ouves o Alexandre?  “Somos um soluço do acaso”. Concordo. Somos.  E, todavia, a felicidade é uma erva daninha que cresce até em corações inférteis…e sim, o meu é infértil como a terra árida de um deserto. No fundo, sou apenas um prego cravado a furtar-se à dor.  Costumava acordar cedo, ainda as manhãs se espreguiçavam no horizonte, mandava uns bafos para o vidro embaciado, limpava-o com as mãos e espreitava a rua. Como vês, eu era uma formiga. Não era assim que me vias? Não era assim que te sentias, a espreitar a vida de uma formiga? Agora está a nevar e pelo meio dos flocos de neve espreitam raios de sol. E logo a seguir o sol esconde-se. Depois, pelo meio dos flocos de neve espreitam os pingos da chuva.  Eu entendo-te. Tem o seu interesse espreitar a vida das formigas. Estudá-las até. Eu estudava-as, sabias? Com uma lupa, às vezes. Quando era mais pequena, nessa altura sim, usava uma lupa e espalhava-lhes açúca...

Felicidade II

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Era dura com os outros, mas implacável consigo mesma. Nunca se deixou ser feliz.